A fada das crianças...


Folhear Fernando Pessoa é sempre um prazer reencontrado. A cada página  deparamos com algo que faz  tanto pensar quanto delicia...
Acontece o mesmo quando julgamos ter ultrapassado uma sensação de enamoramento e ela regressa poderosa a cada reencontro... e nos tira de novo o sono.


Há momentos encontrei esta coisinha deliciosa que tanto encanta como faz pensar:

Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

*
À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve, 
Os seus cabelos de ouro acaricia - 
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.

*
E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas...

*
E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas...
Mas vem o dia, e, leve e graciosa, 
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.  [ in Inéditos, 1932]


O que, à primeira leitura, faz lembrar uma cena do Quebra-Nozes, transforma-se no inesperado e subtil encontro do poeta com os seus sonhos transmutados em realidade artística sob a força profunda da imaginação criativa,com a naturalidade de criança inocente. Toda a inspiração o é e volátil: -  chega quando menos se espera e afasta-se sem ruído mesmo quando desejada. Trouxe vida, alegria, encanto, sons, tumulto...Regressará um outro dia, talvez menos graciosa, talvez menos borboleta da noite...
Num outro registo, podemos apresentar o duo: sonho/real, surgido oniricamente e que a luz do dia desvaneceu. 
Assim se apresentam as ilusões na vida dos humanos...

Se Pessoa tem tão belos poemas, tão diversos, tão autênticos, tão musicais, tão actuais, e modernos, e modernistas; se é um artista dotado de inteligência, profunda cultura intelectual e humana; se possui sensibilidade poética, porque razão se insiste em mostrar, a medo, aos nossos jovens alunos, um poeta-futurista, de mentalidade problemática, como Álvaro de Campos ... se, para o entenderem, não possuem ainda a necessária maturidade?
Não irão entendê-lo e vão ignorá-lo e ostracizá-lo para a vida toda. Muito pior do que acontecia com Camões... Ao menos o Canto IX era encantadoramente descritivo. E até está na moda.
Maturidade não se encontra na net que tanto frequentam...
Ou temos medo de mostrar, cultivando-a, nos adolescentes portugueses essa florzinha da sensibilidade e vamos deixá-los sair dos bancos dos liceus sem aprenderem a amar o maior poeta do nosso tempo? 

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