De vez em quando, uma ou outra qualquer estação televisiva oferece-nos a surpresa de um filme de qualidade. Aconteceu-me isto com o filme -creio que inglês por ter reconhecido alguns dos actores - "A senhora da furgoneta" que me fez ficar agarrada ao televisor até tarde.
Não era filme que apresentasse humor,sexo explícito ou violência gratuita, com socos e tiros como se usa e não deixa de ser interveniente responsável pela onda de violência verbal e física de que tanto sofre a sociedade actual. Mesmo as telenovelas actuais, que deixei há muito de ver por falta de tempo e paciência.
Classifiquei este programa como um bom filme de Natal cujo espírito surge no jovem actor homossexual que deu abrigo, durante quinze anos, à senhora da furgoneta, pobre mulher, uma sem abrigo que recusou durante todo esse tempo desvendar a sua identidade civil para não ser enviada para um lar de loucos onde um irmão e uma cunhada tinham conseguido, no passado, interná-la, fartos de lhe aturarem o mau feitio,tendo obtido a conivência dos serviços sociais.
Vivia a senhora numa furgoneta que, de tempos a tempos, conseguia substituir e, invariavelmente, pintava de amarelo mostarda. Defecava em sacos plásticos, não tomava banho e, tendo disso consciência, não se deixava tocar. Inteligente, manipuladora, matreira ,não consentia que ninguém lhe fizesse ver uma qualquer razão que não a sua. A que era, no momento, a que mais lhe conviesse.
Os vizinhos da furgoneta não gostavam da sua presença, chegando a chamar a autoridade para tentar expulsá-la.
Mais compreensivo, é o jovem escritor e actor que lhe oferece o seu pátio para albergar a furgoneta, com todos os inconvenientes que essa generosa oferta lhe irá acarretar. E aquele que se interessa humanamente por essa figura indesejável à vista e ao olfacto que tanto desagradava ao inglês normal, burguês.
O jovem consegue que uma funcionária dos serviços sociais se interesse por ela e, quando adoece, a senhora da furgoneta segue até ao hospital onde é lavada e cuidada e se vê confrontada com a sua vida anterior de consagrada pianista, num distante passado, antes da guerra, durante a qual chegara a conduzir ambulâncias. Não gosta de se sentir aprisionada e regressa à sua furgoneta onde o jovem vai procurá-la e onde ela finalmente lhe estende a mão perante a estupefacção daquele pelo acto desusado... Convence-o, dizendo: Aperte. Está limpa.
É um momento extremamente emotivo. Foi-o, para mim.
Lá pelo meio, houve um outro momento, este de humor.
Estava frio e o jovem pergunta:
Quer uma chávena de café?
Não. - responde- Não lhe quero dar trabalho.
Pode ser só meia chávena...
Não esquecerei este filme, que encontrei ao fazer zapping... e me mostrou a indiferença com que podemos tratar um idoso inteligente, resiliente e amante da sua liberdade, a que começa pela família e acaba nos serviços do governo, ditos sociais
Indiferença cruel esta que nunca é demais denunciar.
O desfecho do filme fez-me recordar um conto de Fernando Namora, cujo contexto também nunca esqueci.
Há um velho pastor que é internado no hospital com uma pneumonia e obrigado a tomar banho , algo que nunca fizera, que se lembrasse, na vida e que, veementemente, recusa. Adverte os enfermeiros que a água do banho o vai matar...
O que veio a acontecer.
Neste caso, decerto foi da doença...
Who knows?


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