Atracção lunar



Anos após anos a observar o movimento incessante do mar, habituaram-me a reconhecer a força do vento sobre as águas quando a maré começa a puxar, a subir... E mesmo que esteja muito longe dele,  aqui, num planalto serrano, esse mar que sempre foi meu confidente, o meu amigo imaginário, é  verdade que lhe sinto a presença na força e barulho do vento quando me fustiga ou acaricia o rosto. E então... que saudade do tempo em que me reunia a ele para desabafar, desejar impossíveis, lamentar experiências, confidenciar esperanças...e, sobretudo, chorar.



Na areia molhada, lembro-me de desenhar um nome; pôr em palavras um sentimento; colher a concha ou aquele pequeno seixo que me encantava; ou de recitar pedaços de versos de cariz lírico ou épico para lhe gabar a preguiça... ou o serenar...


Por longo tempo me afastei desse mar, que só visitava de onde a onde, palmilhando os paredões, solitários, no inverno, e pejados de veraneantes e pescadores, no verão. 
Mas nada era igual à sensação de o sentir lamber-me as pernas e sentir a algidez das suas águas. Sobre um qualquer paredão, apenas podia reconhecer o cheiro a maresia, esse cheiro húmido e iodado que sorvia a fundos austos e rejubilar com o som do tcha-tchap das ondas contra as barreiras de pedra e de cimento que ele sempre galga quando muito zangado...

[21-08-2018]

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