Ultimamente dei comigo a ler,interpretar e a sentir a poesia de António Nobre. E a entender de que forma terá influenciado um Fernando Pessoa inteligente, culto, hipersensível e com tendência para a depressão.
A presença da morte, a dor constante de viver, as ilusões desfeitas sobre a busca para a saúde do corpo, as humilhações sofridas no mundo em que viveu, a delicadeza de alma que as suportava e aumentava, tudo isto Fernando Pessoa entendeu como ninguém, que não só as dificuldades de cariz financeiro que a ambos tocou . E nele bebeu o amor ao solo pátrio e o orgulho lusíada com que fez renascer das cinzas do esquecimento os heróis de antanho, em visões poéticas de excelência como as que encontramos in Mensagem.
Tinha lido sobre essa influência, mas não a sentira como tal por então demasiado jovem perante a vida e apenas muito amante das lendas dos heróis pátrios. Contudo, no momento, comungo as dores de um poeta que intitulou de Lógica (?)o soneto que segue:
Ai daqueles que, um dia, depuseram
Firmes crenças num bem que lhes voou!
Ai dos que neste mundo ainda esperam!
Terão a sorte de quem já esperou...
Ai dos pobrinhos, dos que já tiveram
Oiro e papéis que o vento lhes levou!
Ai dos que têm, que ainda não perderam,
Que amanhã, serão pobres como eu sou.
Ai dos que, hoje, amam e não são amados,
Que, algum dia, o serão, mas sem poder!
Ai dos que sofrem! ai dos desgraçados
Que, breve, não terão mais p'ra sofrer!
Ai dos que morrem, que lá vão levados!
Ai de nós que ainda temos de viver!
António Nobre in Despedidas[1893]
Passei a noite a ouvir uivar o vento e vi através dos vidros como enrolava com raiva os ramos das árvores. Ouvi dizer que era um vento gelado que soprava do oeste... Não o experimentei pois o calor da casa amolece a vontade de respirar o ar lá de fora... E senti-me entristecida ao pensar como António Nobre, o poeta do Só, que sofria de uma grave doença dos pulmões, devia ter penado pelos lugares por onde andou em épocas em que o conforto não se comparava ao que hoje se pode usufruir.
Aí, senti-me gelar por dentro...

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