... Em dias cinzentos de desespero interior, reflectidos nos céus enevoados, grávidos da chuva cujo som é música para os ouvidos após a seca que recentemente flagelou seres e solos sem piedade, as saídas para avaliar temperaturas e climas, a inteirar-me um pouquito das preocupações generalizadas de comadres e compadres, hieraticamente bem sentados em sofás estofados de metáforas arrojadas, enoveladas em imagens criadas para atrair as incautas atenções de quem passa e que agarram, prendem, fascinam... a vontade é fazer como o bicho de conta: enrolar-me sobre mim própria em jeito de auto-defesa, chocada pelo mundo da publicidade avulsa que dá largas à imaginação para convencer, manipular, despertar emoções e desejos, escondidos no subconsciente de quem olha, e lê...esquecido de pensar.
Em jeito de balanço, dou-me conta que me agrada o conceito de "arte pela arte" quando dá vazão à necessidade de expressar o estremecimento visual, acústico, ritmado, mesmo que o objectivo implícito se reduza tão só a criar beleza. Aí, sim, vale a pena sair e sentir até o desconforto...
O universo das várias harmonias,se formado no interior de um ser e expressado com a sinceridade do que se sente como nosso - alegria e tristeza misturadas - nem sempre fácil de comunicar, por pudor, ou timidez, atrai, pode fascinar. Há momentos em que surge um texto breve ou longo que parece responder às preocupações de cada um, ser-nos dirigido... «Bruxo...» pensamos. Quantas vezes apetecia responder, dizer das nossas verdades, mostrar que pensamos assim ou assado, refutar, concordar... Dizia-se outrora na minha zona que "muita gente junta não se salva" e montes de comentadores não salvam ninguém, sequer se salvam a si mesmos. Então há gentes que acabam por impedir a capacidade de resposta e quedamo-nos a passar e andar, embora se tenha escutado, reflectido, empaticamente sofrido e até chorado e depois murmurado baixinho, bem baixinho, porque a praça pública, outrora tão cara a gregos e romanos, é sítio de vendedores e de políticos e muito pouco a nossa onda...


Sem comentários:
Enviar um comentário