Acordar no dia...


 Acordo e estiro-me da posição enrolada que tomo para adormecer e em que durmo. Por vezes os membros estão anquilosados e dores vagas localizam-se em vários pontos do corpo, mas não ligo - 
 - assim que me levantar cessam e raramente me ocupam a mente ao longo do dia.
  Levanto o estore e corro as cortinas para ver o Sol, mesmo que o Sol esteja escondido atrás de densas cortinas de nuvens pesadas e cinzentas e espreito o jardim. Há ainda botões de rosa que pretendem abrir, e uma ou outra corola que conseguiu desabrochar ao calor doce de um ou outro dia de Outono. E corolas amarelas de cravos túnicos que este ano se multiplicaram e cresceram generosamente, nem sei bem porquê, e ainda não desistiram de florir. E vejo a larga copa de um enorme azevinho cheio de bagas vermelhas que sempre enfeita o Natal e que tem de ser desbastado duas vezes ao ano por não deixar chegar a claridade solar às plantas que moram nos outros canteiros em redor.
 É pequenino o meu jardim,  mas é precioso para mim e é o meu mundo. Conheço o lugar de cada planta, de cada roseira que castigo com podas frequentes e sempre se vingam  prendendo-me a pele com os seus espinhos acerados , ensanguentados depois da crueldade perpetrada. 
  Este ano, o verão não deu grande vida às rosas. Também não foi ano de jarros. Nem de amores perfeitos que a chuva e a humidade faziam apodrecer e murchar. Mas a salsa, a rúcula,a alface e as couves gostaram de viver misturadas com as flores e são uma óptima fonte de rendimento para sopas e saladas caseiras. As urtigas foram dar uma volta para outras bandas, e o caldo verdinho que proporcionavam deixou de ser possível, fragrante de azeite e gema de ovos cozidos... 
  Colhi na net uma receita de compota de pétalas de rosas. Em contrapartida, a framboeseira deu para fazer muitos frascos de doce e os maracujás ainda crescem sob a densa folhagem verde. E, de momento, as japoneiras mostram os seus botões que incham devagarinho sob as geadas agrestes das noites deste fim de Outono.
  É pacificador olhar o jardim onde as heras sobem pelas hastes da roseira de Santa Teresinha mascarando-lhe os poucos espinhos e as suas pequeninas rosas se entrelaçam com o verde e rubro das folhas e bagas do azevinho. E há paz na certeza de criar algo vivo e são.
  Assim é o meu acordar.
 Assim é iniciada a rotina da manhã. 

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