Faz frio lá fora...


Pois é: lá fora dizem que está frio.
As vizinhas queixam-se que está mais frio na rua que em casa... São seis formigas com frio que gostaria de poder arrastar até junto ao calor das lareiras daqui, mas egoistamente de tal não sou capaz por não saber que dizer-lhes e decerto a sua tagarelice me não agradar também.
Fechada no meu canto, assomando à janela para exercitar as pernas e sentir a vaga sensação do movimento, olho os passantes agasalhados até ao cocuruto da cabeça, apenas de narizes ou olhos ao léu. Não neva, mas as noites acordam geladas até ao âmago da terra e,pela manhã adentro, há sob os pés um cric-crac seco que acorda o silêncio do solo esbranquiçado que, durante as nocturnas horas, a geada perlou.
É duro o Inverno. Só me consola se matar certas pragas que não resistem ao frio intenso, sobretudo a insecticidas conhecidos. São estas pragas inimigas das plantas e frutos do jardim e da horta. Só por isso me consola saber que o termómetro desceu abaixo dos 0º graus ...
Mas sofro com quem sente o frio e não consente defender-se dele. Sofro com quem procura fugir ao frio e à solidão. Sofro por sentir as mãos congelarem sobre o teclado e acordar na noite sem ter o calor de uma recordação ou de uma esperança numa melhor vida.  AQUI chegada por vezes sofro demais com a dor universal de que sou e me sinto cada vez mais um pedacinho de céu triste.
Tenho nas mãos uma espécie de mitenes de lã que uma das minhas filhas me ofereceu como prenda  num dos muitos Natais em família... São elas o símbolo de um halo de afecto para além do conforto físico, que não se partiu com o evoluir do tempo. Pode ter fechado ciclos de indiferença ou dor, mas deles sempre renasceu . E é isso que importa.
E lembranças tristes, como formigas que congelam, gostaria de aquecê-las nas minhas mãos cálidas e trazê-las de novo para o reino encantado da emoção.

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