Hoje descobri porque não tive amigas ao longo da vida, daquelas amigas a quem tudo se diz. tudo se conta. E tal não foi por haver em mim uma qualquer capacidade de amar, e fazê-lo incondicionalmente. Antes pelo contrário.creio que o meu grande mal foi essa imensa capacidade de amar tudo e todos os que admirei profundamente por capacidades humanas e intelectuais em simultâneo, ou por estas em particular, sempre acrescidas por um coeficiente de inteligência acima da média, porém. Sem esta última qualidade nunca fui capaz de amar ninguém, nem sequer um bicho.
um dia, há longos anos ouvi um actor consagrado - Luís Miguel Cintra, para maior exactidão - afirmar só ser capaz de gostar de gente bonita e inteligente e concordei inteiramente. E se o bonito fisicamente é relativo, pelo menos na minha concepção de beleza física, seja do homem ou da mulher, tem de ser uma extensão do que houver na alma da pessoa para me agradar ao ponto de ser capaz de amá-la. Aí sou absolutamente capaz de uma entrega para a eternidade, se existir
nos escaninhos mais secretos de mim mesma, encontro uma enormidade de afecto por pessoas que se cruzaram comigo no passado, entre elas as minhas amigas Fernanda.e a Júlia. nenhuma delas, creio, se apercebeu algum dia de quanto as amava e apreciava o seu convívio. E, fisicamente, nenhuma delas foi uma estampa em termos de beleza física, mas marcaram-me pela sua capacidade de ser e de se relacionarem pelo menos comigo. Nunca lhes conheci uma deslealdade, ou lhes encontrei um sentimento menos correcto. Perdi-lhes o rasto por mais de meio século e adorei reencontrá-las ao fim desse tempo todo e nem elas sabem ou saberão o quanto.
Nenhuma delas conheceu ao longo de todo esse tempo uma vida fácil. E se considero que a minha foi particularmente difícil, sacrificada, sinto-me envergonhada de pensar assim em face do que sei que sei e sinto que elas passaram. Admiro-as como seres humanos excepcionais e para elas vai, e irá sempre, todo o meu amor.
...Ainda que as veja apenas uma vez ao ano, me recorde frequentemente delas ao longo desse ano, e me coíba de as incomodar por um telefonema inoportuno ou uma visita inesperada.
Não incomodar é outro senão da minha natureza social que se prende com a minha capacidade excessiva de me dar incondicionalmente aos que muito amo, mas que temo que os sufoque. e E que se prende também coma minha sensibilidade à rejeição, uma forma escondida de profundo egoismo, afinal.
Não era nada disto que me propus escrever quando abri esta página, mas foi aquilo que honestamente me saiu. E tudo porque ontem o telefone tocou e soube que a minha amiga Júlia se encontra hospitalizada, falei com ela e fiquei preocupada com a sua parca saúde mais do que é habitual.
E também porque quando sofro em demasia pelos que muito amo me refugio na escrita, a única amiga a quem fui fiel e me tem sido fiel ao longo da minha vida de muita solidão e muita amargura, pois das alegrias nunca me apetece falar, talvez porque mal as tenha sentido... ou por mim tenham sequer passado.

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