Um grilo na sala...


Cristo já ressuscitara dos mortos, mas ainda não ascendera aos céus...

A família reunira-se à volta da mesa para o repasto pascal do Domingo Santo. Não se abrira a televisão e o Compasso passara, entrara e saíra por volta das 10:30 horas.
Os familiares homens tinham achado indigno receber o grupo portador da Cruz e arranjado forma de se tornarem invisíveis. Assim, coube às mulheres e aos três canídeos receberem o Senhor na Cruz, depositando nela o beijo da praxe ao som dos latidos, mais de satisfação do que de ameaça, dos quatro-patas, e nenhum reparou que um dos recém-chegados se sentira no direito de levantar da espécie de altar pascal que decorava o hall de entrada, um envelope branco, que aqueles sabiam conter recheio destinado a despesas paroquiais. Os quatro-patas julgaram,  obviamente, que era tudo gente honesta...
Deste modo, ignorou-se o massacre no Siri Lanka, a queda da grua sobre as nove casas na cidade do Porto, as notícias sobre futebol, e outros dos muitos dramas com que os noticiários televisivos nos bombardeiam às horas das refeições. 
Após o almoço de festa, prolongado por conversa animada, houve dispersão dos familiares: uns a passear os canídeos; outros para os respectivos quartos a repousar um pouco, antes de iniciarem a viagem de regresso.
E eu fiquei só na sala com o grilo.
Bom, eu não sabia da sua existência se não quando o ouvi grilar com uma certa insistência. Vinha o som de um dos cantos da sala e fui ver se o avistava, convencida que tivesse entrado por alguma abertura da janela que dá para o jardim.  Não consegui e dirigi-me à cozinha a comunicar a insólita presença do insecto grilante.
Como calculei, a notícia causou alvoroço e lá veio a aia de companhia investigar, por sua vez, a presença desse elemento que não fora especificamente convidado.
Arrastaram-se cadeirões, espreitou-se debaixo dos móveis... e nada. De vez em quando grilava, mas não se via em lado algum. Então alvitrei que se fosse colher serradela ao quintal, ou se colocasse no solo uma folha de alface em lugar visível para ver se o bichinho dava as caras... isto é, as antenas, para se poder devolver devidamente à natureza exterior a que pertencia. O que se fez.
Mas continuou a grilar  de tempos a tempos, ao longo da tarde, por vezes em resposta  à aia de serviço que tentava imitá-lo para ver se o atraía...
Perto da hora em que o Sol curva em direcção ao poente, a família reapareceu e comunicou-se-lhe a presença do visitante inesperado. 
 - Oh! Não! Esse é o som do meu telefone!
Perante a risota geral, tive pena de não ter sido mesmo um grilito negro à faire rendez-vous chez moi...?!?!

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