Numa crónica de Miguel Esteves Cardoso, [Público,2.03.2019] conta este que , quando menino, seu pai lhe falava da virtude da paciência, afirmando que a considerava o princípio da sabedoria, e que o seu oposto era a tolice.
Fiquei a pensar no assunto e, com a rapidez exigida a um sábado com pouco sol e muitas e ameaçadoras nuvens, dei comigo a chegar a algumas muito simples conclusões: que paciência é saber escutar mais do que falar e colocar-se no lugar do outro desde que se saiba qual seja. Nem sequer é saber esperar por ser, sobretudo, uma forma de compreensão.
Acrescentava ainda o cronista que seu pai era de opinião que seres humanos não eram perfeitos, eram apenas humanos e que as suas vidas não eram máquinas. E que até estas falhavam quando menos se contava...
Em criança fui relativamente paciente... por imposição, pois não tive outro remédio. Porém, quando acontecia sentir-me enjaulada em demasia, fugia ...para casa dos vizinhos ou para a rua,. Depois ficava de castigo, tardes inteiras, com uma perna atada a uma linha, ou a um cordel. E não adiantava chorar, porque o castigo se tornaria ainda mais severo.
Mais tarde, proibida de brincar com outras crianças e depois de aprender a ler, a leitura de tudo que encontrasse escrito, e a que pudesse deitar a mão, era o caminho de fuga possível, mesmo que muitos dos livros não fossem convenientemente descodificados dada a ignorância dos muito poucos anos. Resultado: os livros passaram a ser escondidos e, já na adolescência, alguns deles, se emprestados, queimados no fogão de lenha.
Portanto, habituei-me a ser paciente... e quanto!...
Porém, pela vida fora, aprendi que à virtude da paciência se podia também chamar resiliência perante a injustiça, a dor, a incompreensão. Agora, na idade em que o desejo passou a ser cócega, compreendo que cada vez mais a paciência continue a ser virtude imposta pelo uso de viver, independentemente de emoções, de razões, ou do que seja.
Aqui chegada, confesso: - não sou máquina. Também sou humana e erro. Como tal, imperfeita.


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