O Natal das crianças

`É Natal  e os sobrinhos-netos vieram trazer os presentes à tia-avó. Já me habituei a vê-los crescer de ano para ano e o mais novinho ostentava, com muita dignidade, um velho barrete de pai-natal, que depois acabou por esquecer.
Claro que tinham todos também um saco de prendas, e senti-me feliz ao ouvir as suas exclamações de entusiasmo com as prendinhas e jogos escolhidos para lhes dar prazer.
Ainda não havia enfeites na árvore e a ofereceu-se para ajudar... Já tinha ajudado a fazer duas, neste Natal - confidenciou.

Passado algum tempo, o benjamim experimentava  os fofos pantufos azuis decorados com o homem-aranha, que só tirou no fim da visita e veio perguntar de mansinho: -Tia, posso abrir o meu jogo?...
Ri-me. Claro que podes!... é teu ! fazes dele o que quiseres!...  

Jogaram, brincaram, riram, discutiram... Repreendido pelo pai, o Zé  até chorou... Tinha gritado com a irmã e o pai não gostou da tonalidade algo desmesurada do seu tom de voz. Mas como estava a ganhar no jogo das compras, consolou-se e esqueceu a repreensão.
Já em ala de marcha, de regresso a casa, nova pergunta: - Tia, o que é isto?
A princípio não percebi...Isto, o quê?
Mas, como apontava o piano fechado, entendi. Abri-o, ensinei-lhe onde era o e começou a teclar, muito devagar, uma das canções do filme Música no coração. Veio em seu auxílio a irmã mais velha, mocinha de 15 anos, e lá saiu a melodia como devia ser!
Na cozinha foi um reboliço! Olhal! Até que enfim que è Natal!...Que bom!

Depois foi o Frère Jacques e  a toada do Atirando o pau ao gato! E já foi um pouquito contrariados que se despediram, carregando até ao carro os saquitos dos presentes, a minha primeira preocupação em compras, com medo que aparecessem e me encontrassem desprevenida.
Porque o Natal só tem sentido para as crianças!...
E de todos os que ainda acreditam em boa vontade!
 E Boa Vontade é amor, do mais sentido.
...
Diverti-me a vê-los jogar, fazendo complicados cálculos para imaginárias compras, trocando impressões... e até os adultos deram palpites, explicando  peripécias do jogo, comentando...Enfim, momentos que só o contacto com o mundo imaginário de quem é muito novo traz prazer.
Não acreditam já, nem no Pai Natal, nem no Menino Jesus enquanto  fazedores ou transportadores de presentes.
Com a idade deles, recordo que quase não recebia prendas e, contudo, acreditava no Menino Jesus, o meu amigo imaginário com quem brincava e conversava durante toda a época natalícia, pelo menos. Tinham-me dito que ele descia pela chaminé do fogão da cozinha que tinha de ficar impecável para  se não sujar... Sobre o tampo do fogão colocavam-se os sapatos de toda a família e, no dia seguinte, ao acordarmos, lá estavam as prendas... não as desejadas por mim,possivelmente por todos, mas as que o Menino entendera trazer. Nunca me senti muito desiludida, porém. Crianças habituadas a uma certa frugalidade contentam-se com pouco...
A única, a grande desilusão com o Menino aconteceu quando, houve certo ano, em que se esqueceu de mim... Mas não foi com ele, o amigo de longa data, que me zanguei... Foi com quem me ensinou a acreditar nesse benfazejo menino que descia pelas chaminés de todo o mundo nas vésperas do seu nascimento.
Verdadeiramente, foi com o mundo dos outros que me zanguei de verdade!...
E, lá no fundo... acho que ainda continuo muito zangada. 
Mas faço de tudo para que não se note...


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