Arrumações, arrumações... Agora são livros, sempre livros, que procuro árdua, penosa e persistentemente, organizar, sempre com o resultado da falta de espaço que de há muito me persegue. Mas livros nunca me pareceram demais e foram os amigos, no geral inteligentes e fiéis, com que sempre contei ao longo da vida.
Também tentei evitar comprá-los. Alguém me ofertou então uma geringonça on-line afim de ler com mais comodidade tudo o que pudesse interessar-me...
Em vão, porém.
Para os sentir como amigos e me darem o prazer completo da leitura tenho que os cheirar, tê-los entre mãos, voltar-lhes as páginas, senti-los meus... ainda que me dêem depois um trabalhão dos diabos a arrumar por conteúdos, autores, épocas. E colecções, e tamanhos... sei lá!
Entrar numa livraria, ou num qualquer lugar onde vendam livros e não escogitar, pegar, folhear longamente, é não sair contente de mim apesar do peso em compras que deixou o comerciante feliz e contente e eu com a conta corrente aliviada de umas boas dezenas, ou centenas de euros...
Livro, entre nós, é caro p' ra burro!...
Quando menina, sonhava com uma grande biblioteca...Foi sonho concretizado, apesar de ontem, hoje e decerto amanhã me doerem mãos, pernas, joelhos e pés, de horas seguidas de trabalho... Nos dias seguintes, irá doer ainda mais a zona do sacro...
Oh, Deus! Se soubesse, nunca tinha comprado tanto livro! Alguns, os de arte, os dicionários, as enciclopédias, com quilos de peso!!!
Reticências
Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!
Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem - um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim até se faz a vida!
(...)
Álvaro de Campos, in Ficções do Interlúdio,[15-05-19299]


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