Foto de MZ
A Lua destacava-se extremamente brilhante num céu muito enevoado. Contudo iluminava tudo de uma forma irreal, como só a lua sabe fazer... Parece que a luminosidade que o Sol lhe emprestava rondava os 99% e não me custa nada a acreditar. Sussurrei uma mensagem de ternura e espreitei as sombras... Depois corri as janelas, fechei as cortinas e fui deitar-me. O luar de Agosto e os da época do Natal têm o singular condão de me enfeitiçar...
De tarde, um casal amigo da família veio visitar-nos. Vão festejar as bodas de ouro em fins de Setembro e já estávamos convidados para o evento. Tomávamos o chá e o marido afirmou não concordar com a esposa em voltar à igreja a renovar os votos do enlace e dei-me conta de que a esposa experimentava desconforto perante a recusa.
Admirou-me também a mim, dado que ele tem verdadeira adoração por ela e não sabe nunca, ou quase nunca, contrariá-la.
Tentei sondar as razões para uma atitude tão negativa vinda de quem até acompanha religiosamente a consorte todos os domingos e dias santos à missa e apercebi-me da convicção sincera do meu amigo achar tudo aquilo dos votos uma fantochada que de há muito o não convenciam, convicções estas que são fruto de mais de uma quarentena de anos a lidar com mentalidades pró-luteranas, avessas aos dogmas da igreja católica. E também à moda do "viver com" a que a juventude de filhos e netos de algum tempo a esta parte habituou. Porém, senti pena da senhora, que confidenciou não ir preocupar-se em comprar toilette adequada à ocasião, pois o almoço, só de família e amigos, não a obrigava e assim poupava na despesa. «Mulheres!...sempre preocupadas com detalhes fúteis!...» pensei com alguma compreensão e muita ternura.
Decorreu a tarde e fomos até à "quintinha das pedras", que conheceram há sete meses cheia de silvas, mato seco e pedregulhos e agora lhes surge dia a dia cheia de flores, pequenas árvores e variados arbustos, para além dos variados produtos hortícolas.
No regresso, aproveitei para mostrar a minha estranheza perante uma atitude tão radical e fiz a pergunta:
- Mas o amigo está arrependido de ter casado com a sua mulher?
-Oh! não, não, de maneira nenhuma!
- E se fosse hoje voltaria a casar?
- Absolutamente! É que nem duvide!
- Mais uma razão para não perceber a sua atitude, meu amigo! Já viu o desgosto que está a dar à esposa?
-Isso passa-lhe!
- Hum... não sei, não. E se ela, para casar com o senhor, lhe impusesse como condição ir à igreja para celebrar o casamento o meu amigo ainda ia?
- Claro!Aí fazia-lhe a vontade. Por isso não me arriscava a perdê-la. Agora é que acho desnecessário. Os 50 anos de vida em comum não precisam de mais provas do que as que foram dadas ao longo de todo esse tempo.
Ri-me e encolhi os ombros...«Homens!...» pensei.
E voltei à carga:
- Tenho-o como um homem inteligente, sensível e muito amigo da sua mulher. Que lhe custa fazer esse pequeno sacrifício por ela, então? São 30 minutos na igreja, renovando as palavras dum casamento em que acredita. Porque não dar essa alegria à esposa, a melhor prenda que ainda lhe pode dar nesse dia e nesta vida, já pensou?...
Não respondeu logo, nem sorriu. Pareceu-me abalado, quando disse:
- É capaz de ter razão. Não pensei no assunto desse modo. Mas vou pensar, acredite. Depois digo alguma coisa a respeito...
Não insisti a não ser com um :«Pense com carinho. Acredite que não vai arrepender-se.»
...
Hoje, depois de acordar, senti-me contente comigo porque conheço o amigo e sei-o incapaz de provocar à esposa, ou a quem quer que seja, uma desfeita ou um desgosto de forma consciente.
Estou é preocupada com o que lhes vou oferecer por alturas do evento em causa...


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