Toutinegras,verdelhos e melros bravos,...


Chegam na Primavera e desaparecem no Outono. Enchem o espaço de alegria e o ar soa mavioso. As minhas manhãs não conseguem esticar mais para os espreitar: vejo-os carregar as palhas secas com que forram os ninhos, o cuidado na procura do alimento diário e as quezílias e brincadeiras entre si, invejosos que são em abarcar o que mais lhes convém. São os meus pássaros e plantei, em Novembro passado, umas vinte árvores para os acolher, dado que o bosque que os esperara ao longo de décadas, talvez centenas de anos,fora recentemente dizimado  para venda de pinheiros bravos e os terrenos respectivos loteados a particulares, nos quais me incluí de imediato: 
"Compro todo o terreno que me possam ceder."
 A ideia era não ter vizinhos quezilentos atrás da casa e do quintal e poder repovoar aquela terra bravia com novas árvores, flores, ervas, couves e brócolos, e chamar de novo toda a passarada que entretanto perdera os lugares habituais de nidificação.
Tudo isto aconteceu a partir do passado verão. Um dos vizinhos quezilentos fez da parte dos terrenos  que lhe coube um estaleiro de cimento: faz, desfaz, pensa com vagar, falando sozinho com espaçados gestos, por vezes de metro na mão, a melhor maneira de ocultar a terra, virgem,até aí, de passos humanos, com pavimentos duros e acinzentados, furioso por não ter podido abarcar os terrenos das vizinhas... "que nem saem à rua, para que raio é que querem os terrenos, aquelas cabras!"... e outros impropérios de pior jaez, que o homem é useiro e vezeiro em empregar vocabulário do mais disfórico...
Na terra dura meteu-se uma máquina para a picar. E a rocha granítica subjacente esboroou-se e ficou-se com terra leve e poeirenta, semeada d pedras, muitas pedras de variado tamanho e feitio.
 "Deitam-se para o pinhal."
" Ná! Isso nem pensar! Comprei essa terra com as pedras, paguei por elas! Pertencem-me!"
"Ora essa!...Não se pode cultivar em cima de tanto pedregulho!"
" Pode sim senhor! As pedras desfazem-se ao longo do tempo e enriquecem o terreno. Entretanto forram-se caminhos com elas.E semeiam-se depois com erva para abafar os passos."
Isto passou-se algures por Novembro.
" Este terreno precisa de muita terra! Aqui não vai pegar nada..."
" Compra-se um bom substrato vegetal  para enraizamento, não quero cá terra de estranhos... E fabricamos um outro com os restos da cozinha e vais ver como resulta..."


Resultou! Terra abençoada esta onde tudo que se lhe planta leva tempo a desenvolver, mas enraiza e ganha força com cuidados continuados: adubo biológico e água e caça às várias espécies de cochonilhas que o vento traz até nós, assim como o fresco da noite e as mariposas nocturnas e as borboletas que esvoaçam de ramo em ramo, airosas e livres! Não faz mal! Também as pragas precisam de viver a sua ínfima, microscópica vida!


"Não mates as borboletas! Não mates os escaravelhos! Nem os gafanhotos! É na diversidade que existe o equilíbrio da natureza e as nossas toutinegras precisam dos insectos para alimentarem as crias..."
Já havia toutinegras a nidificar nos cântaros arrumados numa prateleira do quinchoso que abre para a quinta... Vieram duas e agora já há quatro que brincam e se chamam entre si pelo dia adiante.


Além das toutinegras, há verdilhões nos beirais e rouxinóis bravos, e gaios nas árvores ainda não sacrificadas à ânsia humana de destruição.
Comprei rações variadas para os ajudar a alimentarem-se. E sinto uma espécie de encantamento quando os vejo a esvoaçar à volta dos locais onde lhes coloco os alimentos.
Ah!  Adoram arroz cozido!.


Uma destas manhãs, deparei com um melro de bico amarelo, negro e gordo, empoleirado num ramo do limoeiro, virado para as minhas janelas, que cantava maviosamente, num concerto vocal que me deixou estarrecida... as pausas eram para se espanejar, catar, abrir as asas fortes e depois lá voltava ao canto!... Parecia cantar para mim , só para mim! Depois vinha espanejar-se na terra, abria muito as asas e voava de novo para a protecção do ramo do limoeiro. E gorgeava de novo... Adorei!


Com a vaga de calor, a passarada só esvoaça e canta pela madrugada e ao fim da tarde. Aqui, no meu jardim e na minha "quintinha das pedras", sabem que ninguém lhes quer mal. Em Setembro começarão a desaparecer, com excepção de alguns pardais, dos melros e dos corvos do rio que crocitarão lá do alto, em voos poderosos... E eu já sonho com o regresso primaveril das minhas toutinegras que virão fazer ninho de novo, espero, nos buracos fundos dos cântaros de plástico azul que este ano elegeram para criar a sua prole... e cujo conteúdo respeitarei como se de  um sacrário de vidas futuras se tratasse. 
E sei que virão aninhar-se nos beirais e nas árvores frondosas do outro lado da pacata rua. E continuarei a alimentá-los, tão ou mais feliz do que eles se sentem por encontrarem o que precisam para sobreviverem, procriando..



Depois vê-las-ei de novo afadigarem-se para fazerem um novo ninho e caçarem bichinhos para alimentarem as crias, educarem-nas e conviverem com elas até ao fim do Verão... E divertir-me-ei a vê-las a brigar por vermes ou migalhas e encherem de sons alegres e melodiosos o espaço aberto ao redor da minha casa e espero ter as minhas árvores frutíferas a produzir de forma a ajudar a alimentá-las.
Não me vai importar nunca ter escrito um livro, pois plantei já tanta árvore que irá alimentar tantos bicos, como já o faz a minha framboeseira!...  E nem por isso deixei de comer framboesas. pois a  estes artistas do canto tudo se lhes deve!...

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