Quase noite, à beira do rio...


Sexta-feira, pelas 16,30 (20.11.15)
É noite à beira-rio.
Sentada à mesa do bar do hotel, espero o chá e a torrada da tarde. 
Vejo velhotas e velhotes, como eu, por todo o lado que ouço conversar de mesa para mesa, ao contrário do habitual em que , nos dias de hoje, o seu silêncio quase me tem incomodado. Pessoas sós e mudas e casais que se interajudam sem palavras, por hábito ou obrigação. sentados lado a lado, ou frente a frente, olham o vazio ou consultam mensagens nos tablets ou nos telemóveis. Às vezes falam com amigos ou familiares distantes para nada dizerem...e em breve retomam o silêncio em que nem as moscas se ouvem, porque o serviço de bar é igualmente silencioso
Vou à torrada. Cheira bem o pão e o chá de frutos vermelhos, a saber a oxidantes variados... e vai saber bem no preparar as papilas para a sopa do jantar. Ou a passar pelo jantar que apetite é coisa que sinto pouco e só surge perante comida dita saudável.
Ainda não são cinco horas e a noite já caiu. Por isso os pássaros duetavam uns com os outros escondidos nas gigantescas copas das árvores que circundam as águas paradas dum rio preguiçoso que mal guarda a luminosidade que o céu azul-pálido há momentos lhe emprestava.
Durante o passeio de hoje, explorei a margem direita estuando de vegetação rasteira, numa segunda aventura já com sapatos cómodos, de palmilhas que guardam a memória da sola de pés cansados de andar. Entre veredas com musgos e copas de árvores e arbustos estuantes de cor - castanhos fulvos e rubros contrastam com verdes claros ou amarelados - olhei e quase escutei o som das folhas a caírem mansinho até tocarem o solo e comoveu-me a sua sorte que é a minha - a de todos nós, pobres seres viventes. Completam o seu ciclo e só as águas permanecem quase imóveis  e de todo indiferentes, funcionando apenas como um espelho natural.
Agora, no bar, distraio-me com a conversa do senhor com glaucoma, que prevê deixar de conduzir em 2017. Viveu para amealhar e hoje lamenta tê-lo feito. É de opinião de que ter alguma coisa nos tempos que correm é ficar sobrecarregado de impostos e os herdeiros não irão ter condições para conservar. Em pouco mais de uma geração, como mudou o nosso mundo comezinho, provinciano, em que se trabalhava para sobreviver com alguma dignidade e quase nada sobrava para o lazer...Lazer? o que era isso? - comenta com algum sarcasmo para avizinha da mesa ao lado, em que o marido escuta o programa da TvSport.
Escuto-me: para mim sempre se resumiu em tratar da saúde abalada pelas enxurradas da existência demasiado absorvente no quotidiano. E hoje também me pergunto se terei desperdiçado a vida...
Na parede de uma qualquer loja que vende artesania, li, ao passar, uma frase do tipo "se não tens pelo que viver, de pouco te vai valer o morrer". Nem sei se a cito correctamente, mas fez-me pensar no problema do terrorismo orquestrado por jovens de hoje: matam e morrem por uma causa em que acreditam. Estranhamente, nem os temo, nem ouso condená-los, ainda que não possa aplaudi-los, como é óbvio. Matar um ser vivo nunca fez parte da minha filosofia de vida, mesmo desconhecendo a religião budista.  mas se um mosquito me incomoda. ou uma mosca por demais atrevida, sacrifico-a ao meu bem estar. Contudo, penso duas vezes antes de atentar quanto à vida de um semelhante, mesmo quando ameaçada. Mas o mesmo se não passa se precisar de defender outrem, nem que seja o meu cão.
Aqui já se falou de futebol. de netos, de festas de família, de doenças, de qualidade e esperanças de vida e chegou a vez dos tratamentos. Isto interessa-me, porque a médica que me recebeu julgou os meus achaques pelas radiografias e análises apresentadas e parece não ter acertado completamente no diagnóstico. Foi a primeira vez que aqui vim e há tratamentos que já vi anunciados  que nem as empregadas,se inquiridas, conhecem e disseram nunca terem sido feitos.
O velhote do glaucoma continua a debitar conversa: agora fala da compra de mel, e nozes e outros frutos da época. Contudo, não me sai da cabeça a imagem da velhinha com umas bengalas e dois sacos que há pouco vi arrastar-se pelo passeio na direcção do balneário. Acanhei-me oferecer-me para a auxiliar. Ser ancião, doente, solitário... é mau, e aquele corpo alquebrado que se arrastava penosamente na minha direcção fez-me lembrar que tudo terá valido a pena enquanto houver árvores que insistem em morrer de pé.
Por aqui, fala-se entretanto em política: o terrorismo internacional sobrepôs-se às quezílias domésticas.
Árvores de fruto sobrevivem se as raízes tiverem húmus, luz e água...aprendi isso ao ver uma laranjeira tombada na margem do rio, com parte da copa mergulhada na água e com frutos amarelos e sãos na parte superior, aquela por onde a água não corre. Nem derrubada e meio submersa a laranjeira cede: cumpre, nas condições possíveis, o seu ciclo de vida. Assim se traduz a perfeição na natureza: viver a todo o custo, em condições as mais adversas: lutar, criar vida, viver para o que se foi indiciado. A laranjeira não cedeu - não cede.
O homem, ser vivo complexo, raramente é capaz da humildade de outros seres que sacrifica em nome de interesses frequentemente inconfessáveis.
Não, não é o fim do mundo - comenta  a interlocutora do senhor do bar. Acontece é que a natureza humana foi sempre mais ou menos o que é hoje: a guerra continua a ser para ela um desporto e não se coíbe de sacrificar outros seres e assim foi destruindo impérios e civilizações.
A maior miséria é poder provocar a infelicidade de outros seres por obstinação, comodidade, ambição, inveja, frustração ou vingança. Essa é a verdadeira miséria.
Daí que também para mim os terroristas de uma qualquer ideologia tenham sido sempre uns miseráveis...
Caiu o silêncio no recinto cada vez mais vazio de gente. Impõe-se agora o programa da SportTv e o nosso animador da tarde saiu para esticar as pernas.
Vou seguir-lhe o exemplo. Resta-me pagar o chá que tão bem me soube depois do passeio exploratório à beira do rio.




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