Tempo de silêncio e chuva


É domingo em sons de chuva e vento e aproveito para catalogar emoções.
É, porém, sempre difícil fugir à realidade do mundo e deixar de ouvir os desconhecidos que passeiam na rua, em casual cavaqueio.
Aguço o ouvido e ainda ouço o comentário em tom de chacota..." cá por mim dava-lhe o cargo e está tudo dito! afinal o homem só se cala se lhe derem o cargo"
"qual cargo?"
" pois então! o de primeiro ministro." Mansamente, o companheiro acena, num sorriso de aquiescência.
 "vendo bem, foi para isso que se pôs na corrida"...
Vejo-os afastar-se, cozidos ao alcatrão da rua, num cinzento esbranquiçado que se confunde com a tonalidade do dia e neles prenuncio a figura saloia e rubicunda do Zé do Bordalo...
Afinal foi mesmo para isso que se meteu na corrida, lá isso ...
... lá isso foi.
Será que dentro de mim ouço falar de quando em quando um honesto e inocente Zé?... Aquele, aquele...
...aquele que se marimba com os rótulos,não distingue os de  esquerda dos de direita,capaz de tirar o chapéu aos grandes deste mundo, mas capaz também de, com maliciosos dichotes, zurzir sem piedade  vaidadezinhas hipócritas, consciente que falam no seu nome apenas para o esmifrarem, qualquer que seja a orientação!...? e tudo, absolutamente tudo,em nome dos mais sagrados ideais?,,,  E, também às vezes nem tão sagrados assim, porque os desdizem em nome de interesses  inconfessáveis dos mais variados, de cunho nacional, internacional e - acima de tudo e frequentemente - pessoal.
Pouco ou nada sei. E quase  desprezo quem sabe.
Procuro fazer o dia a dia sem sobressaltos, sem rancores, sem medos e ainda menos ilusões, tentando encontrar no mundo natural a resposta para as grandes etapas da vida dos seres: uma frágil existência a que se segue a morte, num ciclo que nunca parece responder ao premente porquê do por que se vive e se morre, numa permanente cadeia alimentar tão cruel quanto inteligente.
Nunca obtenho respostas - só momentos vagos de observação, análise de um todo sincreticamente observado e  alguma leve, muito leve,reflexão.
 Para quê abrir a profundidade dos abismos insondáveis do desconhecido, com ou sem ajuda de outrem? e em que contribuo, contribui ele/ela, contribuem eles ...enfim, todos nós contribuímos para uma utópica sensação de felicidade????...
É isso aí: o Zé não se interroga, nem interroga: afirma sem grande convicção  e mostra sardonicamente os dentes , num riso amestrado.
 A cor da noite é escura, é negra, é triste, com o inverno à porta.


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