Salvador Dalí - clocke-time
A minha amiga Júlia já se encontra em cuidados paliativos. Teve que abandonar a filha idolatrada, fruto de um casamento decerto infeliz, dado ter ficado pelo caminho, e os encantadores netinhos, calculo que com a dor mais profunda.
Estive com todos eles antes do Natal e admirei aquele corpo envelhecido e fraco arrimado a duas canadianas, logo esquecidas por quem a visitava pela conversa sempre lógica, sem pieguices desnecessárias, atenta a tudo que se passava à sua volta, como quem apreciava os outros e a vida em si mesma, por si mesma, apesar de tudo...
Vou tendo notícias, poucas, vagas, cada vez mais dolorosas, confrangedoras e nem sei se deverei ir visitá-la de novo, lá, nem sei bem onde, lá onde estão a ajudá-la a morrer...
Se pensar só em mim e na minha dor por a ver partir, sei que não vou. Porém, talvez faça mal ,e, se assim o entender, e por ela, sei que irei até onde as minhas poucas forças permitirem.
No fundo, fazer das fraquezas forças, foi sempre a minha especialidade...
Dentro de mim jaz um gemido abafado, requiem ainda sem som, sem melodia...

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