Tempo de janeiras...

Depois do Natal, era, outrora, tempo de cantar as janeiras a vizinhos e amigos. Ainda recordo a satisfação na voz sonora e bem colocada de meu Pai ao começar a cantar a quadra:

Ainda agora aqui cheguei,
E mal pus o pé na escada, 
Logo meu coração disse
Qu' aqui mora gente honrada!

E depois de umas quadras alusivas às pessoas da casa, sobretudo senhoras ou meninas, a quem poeticamente denominava flores de murta, cheirinhos de hortelã  ou  alecrim e quejandos, gabando atributos físicos e/ou morais, e que acabavam invariavelmente do modo seguinte, agora cantado num coro mais ou menos afinado:

Boas festas, boas festas!
Nós aqui viemos dar!
A casa destes senhores
Se as quiser' aceitar!

Era este uma forma agradável de se passar um serão diferente, que obrigava a regressar a casa já depois da meia-noite, com a alma quente do carinho dos amigos e o estômago confortado com vinho doce, chocolate quente e uma fatia de bolo, ou uma filhó. Tudo tão diferente dos concertos em salas fechadas, onde mal se vislumbra um rosto conhecido e ainda menos simpático... Depois, acabado o concerto, todos se atropelam para chegarem rápido a casa para fugir ao frio e onde hoje se vive só ou com pouca família.
Ainda surgem grupos de jovens às portas das casas para cantarem as janeiras por vezes acompanhados por uma charanga incaracterística... Primeiro tocam a campainha e perguntam se podem cantar... Se a resposta é positiva, entoam umas loas que logo calam assim que recebem uma espórtula qualquer.... Tudo impessoal, tudo desumanizado, por interesse em receber algo, a tal ponto que dá sempre vontade de os despachar, por não os conhecermos de lado nenhum:
 - Não, obrigada. Não é preciso cantar.
 Estamos de luto.


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