Apenas dois poemas...




Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste,assim magro,
Nem estes olhos vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas; 
 Eu não tinha este coração 
Que nem se mostra.
Não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil.
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Cecília Meireles

Sempre que leio o poema, ele recorda-me o soneto de Bocage, que terá inspirado o da poetisa brasileira:

Magro, de olhos azuis, carão moreno, 
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.
Contudo, encontro-lhe uma enorme diferença, que salta à vista depois da leitura da primeira estrofe: enquanto Cecília lamenta a perda da juventude no seu todo, Bocage, aproveitando para criticar o seu aspecto físico, aproveita para pôr em relevo algumas das suas qualidades e defeitos:como amante, homem de paixões fogosas, ciumento, namoradeiro, libertário, anticlerical mas talentoso. Claro que o algum é só falsa modéstia.
Cecília lamentava a perdida beleza que mal sentira esbater-se em razão do tempo breve, talvez uma certa forma de sensibilidade poética mais endurecida, enquanto Bocage,  decerto ainda jovem, amplia o retrato lamentando não ser belo, com poucos valores que o recomendem na sociedade em que vivia e o criticava ,ou mesmo, repudiava. Só  o "algum talento" fazia com que ainda fosse suportado: não era rico, nem nobre, nem tão pouco belo e não curvava facilmente a cerviz perante as injustiças ou os grandes deste mundo...
Por norma, claro.
Contudo, continuo a afirmar que um me recorda o outro, pela dignidade de ambos em reconhecerem as razões do mal estar com o seu aspecto físico em determinado momento das suas vidas e lhes provocava desgosto. Em Cecília há dor contida; em Bocage uma  fina ironia na auto-análise.

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