Uma mão cheia de nada...


Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma... é com esta noção que encaro o dia mundial da pobreza, porque também há  agora um dia dedicado aos pobres deste mundo. Como se a pobreza fosse um bem ou um mal que possa gerar dinheiro como acontece com o dia do pai, da mãe, dos enamorados; como se amor fosse um bem comerciável em si a bem desta sociedade ferozmente consumista em que vivemos.


Há dias atrás, teve lugar a noite das bruxas, que os portugueses hoje conhecem como haloween, à  boa maneira americana. Há uns anos, achei estranho ver este evento ser abraçado por adultos, jovens e crianças... com imenso entusiasmo! E nem foram estas últimas as que melhor abraçaram a ideia, claro!  As jovens professoras de Inglês encarregaram-se de a popularizar tornando-a objecto didáctico-pedagógico. E os alunos adoptaram-na e em breve a aproveitaram para venderem produtos variados a colegas, funcionários e professores: bolos, rifas, cadernos, postais e outros, como forma de subvencionar as viagens ditas de estudo, de fim de curso e outras actividades. Era esta a parte em que me recordo colaborar... comprando, claro, o que não precisava.
À época, não ouvira ainda falar numa festa nossa, tradicional, e vagamente semelhante desse dia 31 de Outubro. No dia 1 ia-se ao cemitério com os familiares, carregando braçados de flores, castiçais com velas e candeias para enfeitar as jazidas dos antepassados. Era nesse dia que se encontravam outros familiares distantes, mas ficava-se por aqui. Pelo menos na cidade onde nasci era assim. E as bruxas pertenciam ao imaginário dos contos populares. E era tudo.
Porém,soube recentemente de uma tradição mais consentânea com a nossa cultura judaico-cristã em que adultos e crianças colaboravam, conhecida como: «pedir o pão por Deus». O produto era  depois canalizado para famílias normalmente com extensa prole e carências comprovadas.
Esta tradição tem pouco a ver com a das "gostusuras ou travessuras", e o querer exorcizar a morte usando máscaras de esqueletos, monstros ou bruxas. Tratava-se de um acto  solidário em que toda a população, sobretudo a das pequenas vilas, cidades, ou bairros, participava, uns pedindo e outros doando o que podiam, tudo para auxiliar quem mais precisasse. E as crianças  cedo começavam a acompanhar os adultos carregando saquinhas de pano onde guardavam as dádivas que não se destinavam a fazer  uma festa, como de uso para festas e romarias. Não, porque o pão por Deus era para alimentar melhor quem precisasse. E, à partida, já se sabia quem.
À nossa maneira, todos temos as mão vazias perante o sofrimento alheio. Não é por acaso que aquele que menos tem é o que mais ajuda. Outrora chamava-se a este acto generosidade. Hoje a palavra solidariedade pode rimar com ela, mas tem pouco a ver com o acto de «pedir o pão por Deus»... porque lhe falta verdadeiro empenho, o que vem da sensibilidade, da alma:  é que, por um dia, era-se pedinte por amor ao outro. Apenas um mais pobre que nós.


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