Viajar na IP3...

Dizem os entendidos - Quercus à cabeça - que as queimadas extensas destroem 78% da biodiversidade, levando à redução média de 94% das espécies de plantas, 86% dos besouros e 54% das aves.
Ontem, como é habitual por esta altura do ano, precisei  fazer a IP3, aquela estrada a que agora se tornou normal designar como da morte. Em inícios da primavera, costuma, porém, oferecer trechos de paisagem impressionantes pela beleza: junta o colorido das flores das muitas acácias-mimosa, ao amarelo e ao verde luminosos dos trevos que atapetam as bermas de uma estrada que mantém pontos do traçado com brechas bem marcadas na superfície asfaltada, e que ninguém  entende por que os responsáveis as não vêem...
A paisagem, de um lado e do outro da acidentada estrada, provocava tristeza e profunda estupefacção: espectros de árvores queimadas, chão pelado, enegrecido e, onde havia eucaliptos de algum porte, ramos a brotarem já, teimosamente, verdes-cinzentos, em direcção ao céu.
Não se viam aves, nem no ar, nem nos braços enegrecidos dos muitos e altos pinheiros que circundavam uma e outra margens do percurso. Para onde migraram, ou simplesmente fugiram os seres que habitavam estas, outrora ,frondosas áreas de floresta ardida?...
Arderam bolotas, os carvalhos, os caracóis, as joaninhas, os lagartos, lagartixas, cobras... javalis, raposas, coelhos, perdizes, corujas, esquilos, picapaus, cabras e ovelhas, lobos e homens, mulheres e crianças também... e abelhas, zangãos e vespas, assassinas ou não.
 As borboletas e as melíferas abelhas não podem visitar as fragrantes flores do rosmaninho. E este ano de 2018 não haverá por esse  Portugal interior rosmaninho que chegue para fazer fogueiras nas festas de São João...
Dá vontade de matar o fogo, e o vento e os seres humanos ignorantes  e maus que se congraçaram para provocar todo este imenso desastre... Nos parcos campos verdes não se via vivalma... Tudo era silêncio e desolação. E as casas não atingidas ou ,milagrosamente, já recuperadas, faziam evocar o terror que todo o desastre provocara nos residentes... Horroroso espectáculo de ver e sentir ao longo de muitos e muitos quilómetros percorridos.
Foi consolador atravessar as pontes sobre a barragem da Aguieira  já com um volume de mais de 80% da água que a prolongada seca entretanto lhe roubara ao longo das estações anteriores.
Estava um dia de sol esplendoroso e, sobre as nossas cabeças, pairava um céu muito, muito azul, pontilhado aqui e ali com algodões nublados...
No regresso, um pouco antes do sol-posto, o trânsito esteve parado quase meia hora dos dois lados da estrada, por ordem da GNR local. Porém não se tratava de uma operação stop, senão de acautelar a descida de esqueletos de árvores que estavam a ser cortadas e podiam resvalar pondo em perigo quem transitasse.
... Talvez seja um indício de preocupação com quem precise de por ali passar...

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