cai a névoa dum céu cinza, fechado e baço. hoje o sol nem espreitou por entre esse cinzento
a cor de fundo deste quadro esfumado que alcanço através da vidraça e que me oculta do frio
e do mundo lá fora.
cinza é a cor do inverno não a cor de um fevereiro que chegou luminoso e suave
cinza é a cor deste espaço que de tudo me afasta e me possui até ao âmago
cinza é a cor dos cabelos do vento que sopra do norte em lufadas de gelo
árvores nuas estremecem no ar cinzento; as brumas ligam margens de silêncio rodeando a tarde, quase noite
na cinza envolvente as folhas das árvores despidas são apenas toutinegras de cabeça preta que sempre levantam voo ao ruído ou ao movimento das gentes que passam.
não saias à rua, aconselhei, porque o sol se escondeu nas rugas acres do inverno que chegou implacável a enterrar as sensações e emoções do outono.
(ainda se a chuva golpeasse o ar
ou a chuva dançasse
para espanto dos olhos...)
na cinza do anoitecer caiu por fim esta tarde que deu lugar à noite.
sombreio a vidraça, corro a cortina...
sinto o frio nas mãos.
MSilva
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