Tenho saudade dos dias de chuva sem fim, outonais, mornas ou geladas quando empurradas pelos ventos frios de norte. Despiam-se as árvores e a natureza começava a recolher-se numa ante-visão sentida dos dias gélidos da estação das neves no silêncio da gestação daquele despertar esplendoroso de tudo o que depois se segue.
O frio instalava-se a pouco e pouco dentro das casas e a lenha na lareira custava a começar a arder. Era o tempo dos magustos e das provas de vinho ou da agua-pé caseira, rosada e quase doce. Ou da jeropiga que deixava um travo licoroso nas bocas quando as castanhas assadas em montes de caruma sabiam a carvão. Era um ambiente de festa e de alegria esfuziante - era vida. Se só houvesse frio cantava-se e dançava-se ao som de uma concertina ou de uma gaita de beiços, ou entoavam-se modas populares e as danças de roda misturavam velhos,adultos, jovens e crianças. Até as mamãs recentes ou as avós babadas bailavam ritmadamente com os bébés de colo bem apertados ao peito.
Assisti a estes encontros sociais enquanto menina, embora nunca me tenham deixado participar neles, o que hoje lamento pelas inibições que sempre me acompanharam ao longo da vida e que fizeram com que me tenha sempre sentido forasteira em todo o lado, excepto dentro do meu próprio casulo.
Assisti a estes encontros sociais enquanto menina, embora nunca me tenham deixado participar neles, o que hoje lamento pelas inibições que sempre me acompanharam ao longo da vida e que fizeram com que me tenha sempre sentido forasteira em todo o lado, excepto dentro do meu próprio casulo.
Mas tudo isto acontecia antes da televisão e da internet... E os dias de chuva ,hoje, gozam-se atrás das janelas de cortinas cerradas, em ambientes aquecidos electricamente, sem a quentura do fogo com lenha, sem cheiro de roupa molhada pela chuva, num ambiente caseiro onde o silêncio reina, porque as casas , por norma,são pequenas e albergam pouca gente ou foge-se às complicações mesquinhas que o socializar com um outro, ou outros, fatalmente provoca. E as pessoas são generosas em teoria ou para que conste no face... Doar-se está fora de causa quando exige atenção directa e esforço físico.
Continuo a gostar das folhas amareladas pela chuva... e quase suspiro pelos lamaçais de outrora quando a chuva pegava com força, dias e dias seguidos e as transformava em resíduo perigoso para quem caminhasse sobre as calçadas... Ou estalavam sob os pés após as geadas da madrugada formadas antes das chuvas chegarem. E quando os loucos do volante sofriam acidentes nas estradas escorregadias com o gelo ou o resinoso das folhas húmidas esmagadas que lembravam manteiga.
... A angústia da seca quase nos torna sádicos.

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