Impressões de outono...


Hoje saí a pensar o dia para as leves brumas frias do outono e até fiz visitas, colhi folhas de cores sangrentas e levemente aveludadas pelo ar humedecido do cair da noite e senti sob os pés a frialdade dos tapetes de relva do jardim do bispo. Porém demorei pouco, agarrada à minha insofismável mania de timidamente nunca querer perturbar e que já nem é mania e sim doença.
As brumas outonais fecharam-se sobre caminhos de há muito fechados que em tempos percorri com desejos de penetrar para além da imediatez das palavras sem som algumas ritmadas e belas, sugerindo mundos de fantasia presa nos enclaves gastos pela complexa tortura de observar e pesar seres, coisas, ideias e mitos. Nesses meandros outrora me perdi sem remédio até acordar pouco a pouco para a vacuidade das mãos vazias do sentir a vida e os seres pelos quais sempre fora  directamente responsável e que ainda necessitam de atenção.
   [Poderei neles incluir as minhas rosas que feneceram durante este tórrido e implacável verão?]
     Daí  que tenha só admirado a porta que me coibi de abrir...
        Quedei-me no limiar... talvez volte amanhã e por ventura entre... Por agora...obrigada, mas não. 


não gosto de te ler por cima do teu ombro
impedida de ler-te o brilho do olhar 
ou a prega irónica da tua boca breve...


 assim a luz do dia não me foge tão cedo 
e posso encarar o cair da minha tarde
com a paz aparentemente dada 
por um mais vago doer de uma saudade


diligente cumpro tarefas humildes e singelas
e adormeço na noite 
sem pensar nas madrugadas frias
infantilmente envolta 
pela suave volúpia de alvos lençóis 
rescendendo carícias
esfriadas por sucessivas e cansadas estações 
e digo boa noite! à ternura 
imbuída numa recordação


amanhã vai ser ainda um outro dia 
e recuso-me aceitar 
que a tristeza venha ter comigo 
para me lamentar..
                           M. Ellen - G.

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